sábado, 4 de outubro de 2014

Texto escrito a meio de Agosto, 3 meses depois de ter chegado

Meu querido Japão,

Eu, eterna apaixonada por conhecer países novos e culturas diferentes nunca fui fascinada por ti, nem mesmo pela Ásia em particular, devo confessar. No entanto, é certo que isto tem vindo a mudar ao longo dos últimos anos. Pouco a pouco a vontade de conhecer a Ásia foi crescendo... fui falando com pessoas que tinham feito viagens por este continente e o bichinho asiático começou a crescer. Passou mesmo de ser o continente menos desejado ao continente com os meus destinos de sonho. Mas atenção, estou a falar lá para o sudeste asiático, não aqui. Sinto muito por te dizer isto assim, tão friamente, mas as verdades são para ser ditas. Não sei se sabes, mas vim para aqui porque pedi uma bolsa para fazer um estágio. Era o único país que podia elegir e na altura pensei, porque não? (não vamos dizer que não a uma oportunidade de conhecer um país novo nunca, jamais, em tempo algum!). E pensei que o destino decidiría por mim. Se tivesse a bolsa era porque tinha de vir e conhecer-te e à tua cultura, senão tivesse é porque não me estava destinado viver esta aventura. Quis o destino que eu e tu nos cruzássemos, como já deves ter reparado. No momento em que soube que tinha a bolsa devo dizer que me subiram uns calores fortes, apesar de ser inverno, e a comida que tinha acabado de comer (e que bem que tinha comido que era a despedida de uma colega e tínhamos ido almoçar fora) começou às voltas, os nervos começaram a subir. Tudo isto em vez de sentir uma alegria imensa por ter uma bolsa, que é o que normalmente se sente. Essa alegria não veio logo, nem nos tempos mais próximos. Afinal, eu ia mudar de continente, para o Japão (e tu estás tão longeeee e és assim, diferente). Sozinha, esta era sem dúvida a parte que mais medo me dava, eu que sou uma desorientada e distraída dos diabos e tu tens um mapa de metro que parece o mapa das estradas de Portugal inteiro. Nasci num país pequeno e isto de tu teres uma cidade com 3 vezes mais pessoas que no meu país inteiro, dava-me medo. Sou um bocado maricas, eu sei, mas olha, sou assim! Os cinco meses que separaram o dia em que soube que tinha a bolsa e o dia que me mudei para aqui foram de nervos, aqueles nervos miudinhos que mal se notam, mas estão lá. A uma semana do grande dia começaram as noites mal dormidas, as respostas tortas para tudo e para todos. Isto para não falar nas despedidas, que foram a conta-gotas propositadamente, para não ser tão doloroso. Acalentava-me o coração saber que ia ter visitas e principalmente, que o Nuno ia viver 2 meses e meio desta aventura comigo. Ia ter de passar a fase mais difícil, o início, sozinha, mas depois teria a minha recompensa. Antes de vir tentei não pensar muito em como seria e para te dizer a verdade surpreendi-me, tanto comigo mesma como contigo. Viver sozinha, ir passear ao centro ou fazer turismo sozinha não foi tão complicado nem tão mau como parecia ser. E Tóquio, aquela cidade enorme, foi-se tornando familiar, deixou de ser um bicho de 7 cabeças mais rápido do que pensei e pouco a pouco fui deixando de me perder. Os teus habitantes são uns queridos e  estão sempre prontos a ajudar, o que também facilita as coisas. Claro que aqui cada dia há algo que nos surpreende, alguma coisa diferente que nos faz ficar com aquela cara de espanto e aquela gota a escorrer pela cara abaixo como aparece nos desenhos animados. Essa sou eu aqui, todos os dias. Mas, neste momento, já não me imagino sem isso, sem o factor surpresa cada dia. Foste-me conquistando de dia para dia, pouco a pouco, que eu vinha desconfiada e de pé atrás. Claro que é muito diferente viver aqui, é mesmo tudo tão diferente daquilo a que estamos acostumados lá para os meus lados. Fazer a coisa mais banal fica complicado. Aqui tudo, mas tudo, o que se faça pela primeira vez é uma grande aventura. Por isso, sinto-me a viver uma aventura gigante, com muitas e muitas pequenas aventuras dentro dela. Ir aos correios, ir pagar a casa, ao supermercado, ao restaurante, apanhar o autocarro ou ir comprar uma blusa são tudo aventuras. Umas mais divertidas que outras, é certo, umas em que dá vontade de mandar tudo para outro sítio, que isto de não conseguir comunicar nem sempre é fácil. 

Agora, 3 meses depois de nos termos conhecido, sinto finalmente por ti aquele amor que se sente por países. Até já me sinto me um bocadinho tua, como sinto do Brasil ou de Barcelona. Sei que posso chegar ao teu aeroporto e sentir que estou em casa (numa das minhas casas). Sinto que quero viver todos os dias intensamente, conhecer-te mais e mais, viver mais a tua cultura, provar mais comidas, viver-te ao máximo. Agora sei que o dia em que me for embora me vai custar. Bem, vou estar radiante de alegria por saber que vou voltar para casa, que esta etapa acabou e que eu a vivi, mas triste e melancólica por te deixar. É que quando se deixa um país que já ocupa assim um lugar especial no nosso coração já sabemos que por mais que voltemos mais tarde nunca será o mesmo. Nunca mais será para ter a rotina que temos agora e viver estas coisas do dia-a-dia que fazendo turismo não se vivem. Tu és giro, misturas modernidade e tradição como nunca antes tinha visto. Tens serenidade e uma confusão caótica a viver lado a lado. És colorido, elegante e discreto. Mas não, não gosto de tudo. Esses teus nervos que te fazem abanar de vez em quando não me agradam. Por isso, só te pedia mesmo para seres um querido e manteres a calma enquanto eu estou aqui. Eu percebo que há coisas que nos tiram do sério e tenhas que te abanar de vez em quando, mas peço-te que seja assim devagarinho, como tens feito até agora.  É que tenho medo dos teus tremores de terra mais a sério,ok? Toma calmantes para ver se te ajudam que tantos nervos também não fazem bem. Pronto, era só isto que te queria de pedir. Achas que consegues satisfazer o meu pedido? Eu ficarei muito agradecida.

Cada dia te gosto mais, Japão. Description: https://ssl.gstatic.com/ui/v1/icons/mail/images/cleardot.gif