sábado, 29 de março de 2014

Lima

O resto dos dias foram passados em Lima, entre combis, o laboratório, comida, colares e mantas. Cada dia íamos de combi para o laboratório. As combis são o meio de transporte mais comum aqui, são como mini autocarros, há vários tipos, mas normalmente têm como uns 20-25 lugares (um deles ao lado do motorista, de co-piloto, outros no chão numa parte mais alta da combi à frente e outros em que temos de de estar encolhidos porque são em cima da roda). Há um cobrador que para além de cobrar os bilhetes como o nome indica, é quem vai  à porta a gritar todo o caminho o percurso que a combi vai fazer para que as pessoas que estão nas paragens fiquem a saber se é a sua combi ou não... isto porque não há ordem, ou seja, em cada paragem não há um mapa do percurso de cada combi, nem dá para saber quais passam por ali. Nem todas têm um número para identificá-las, é basicamente pelas cores e perguntando ao cobrador se pára onde queremos. Eu diria mesmo que andar de combi é uma verdadeira aventura e uma questão de sorte porque nunca sabemos o percurso exacto, não sabemos quanto tempo vai demorar, os preços dos bilhetes variam por mais que entremos e saiamos sempre na mesma paragem. Em algumas paragens há um senhor que aponta todas as combis que passam numa folha e, quando passa uma se quer saber o estado das combis com o mesmo percurso dá-lhe uma moeda e ele diz há quanto tempo passou a última combi com o mesmo percurso. Com base nisto, decidem se as querem ultrapassar ou deixar-se ficar um pouco para trás, para conseguirem mais clientes. Por vezes, há competições entre combis, precisamente para se tentarem ultrapassar uns aos outros e, no meio do caos de Lima, não é muito bonito. Todas as combis têm salsa a tocar, vimos uma que até uma mini televisão tinha (e não, não era para entreter os passageiros, era mesmo para o motorista) e têm uma caixa pendurada de primeiros socorros, o botiquin. Enfim, é toda uma complicação isto das combis. Se há outra opção? Sim há, táxi. E já tá, é tudo o que há.

Apesar de Lima ser constituída por 43 bairros diferentes e de viverem nesta cidade quase tantas pessoas como em Portugal inteiro, não há muita coisa para ver. Fomos um dia a Miraflores, que é um bairro “rico” e onde está o mercado inka, onde se vende todo o tipo de cerâmica, bijuteria e produtos do Peru. Lindíssimo, portanto. É aqui também que está o meu restaurante favorito do Peru, Pescados Capitales, e como não podia deixar de ser fomos lá almoçar um dia. Adoro o espaço, o terraço, a comida é óptima e os empregados super atenciosos. Aqui ficam os pratos deliciosos que comemos e a sobremesa da minha vida, rolinhos de caramelo recheados com cheesecake de maracujá. Tão boooomm! Se vierem ao Peru venham aqui comer.








Fomos também ao centro de Lima para a Noe conhecer e fomos a mais umas lojinhas para comprar quase todas as mantas que haviam para a minha mãe continuar a fazer coisas lindas. Olha que lindas nós na praça de armas...
  



Ainda deu tempo de nos reunirmos com o pessoal do costume. :D


E já tá, acabou. Passou tão rápido, a primeira semana foi tão intensa que apesar de termos vivido emoções de um mês, passou a voar. As quase duas semanas em Lima também e agora já estamos no avião para Madrid. Pela primeira vez vi o rio Amazonas, ainda não foi perfeito porque haviam muitas nuvens e acho que o que vimos eram apenas afluentes, mas é lindo. Super castanho e cheio de curvas. Neste preciso momento estamos a passar pela terceira vez uma zona de turbulência... odeioooooooooooooooooooooooooooooooooo. Odeio, odeio, odeio isto. (desculpem lá, mas tinha de desabafar, a Noe está a ver uma série e não quero tar a chatear-la).



E assim me despeço pela terceira vez do Peru, sem saber quando será a próxima vez que venho, mas sabendo vou voltar e ficar a conhecer um bocadinho mais. O Peru é sem dúvida o país que melhor conheço, o país em que mais kilometros viajei, que conheci mais pessoas e que mais me emocionou. Até à próxima!! 
(Não quero celebrar antes do devido porque ainda estou dentro de um avião, e digo isto baixinho aqui entre nós que ninguém nos ouve, mas se tudo correr bem, daqui a 3 dias estou a caminho de África!! Nem posso acreditar!! Que emoção!! Finalmente!! Pronto, já tá, chega de estar assim tão eufórica, só quando lá chegar é que acredito).

Trabalho de campo

Em Huancabamba, tivemos a oportunidade de estar com pacientes com verruga e febre, as duas fases da doença que estudo (lembras-te Filipa do quanto queria ver meninos com malária?). É super emocionante ver a doença que estudamos em laboratório assim ao vivo. Passamos os dias enfiados dentro do laboratório, a estudar, a ler, fazer experiências e escrever projectos que nos permitam continuar a comprar todo o material de laboratório para continuar a investigar. Estudamos uma doença, damos o nosso melhor, temos muitos dias em que as experiências não saem bem e nos sentimos frustrados, que pensamos que não faz sentido o que fazemos ou que queremos mudar de vida (que viver de ciência não é fácil!), mas depois vimos estas pessoas, a sofrerem daquilo que é o nosso dia-a-dia no laboratório e tudo faz sentido, pelo menos por mais uns tempos. Em Huancabamba vimos uma senhora e um senhor com uma verruga na mão (a fase benigna da doença) e uma senhora com a fase febril e que pode chegar a ser mortal. A senhora estava tão amarela e pálida... precisou de uma transfusão de sangue, mas como não havia um banco de sangue teve de ser transportada de ambulância durante pelo menos 10 horas, por caminhos que não são alcatroados e que se vai sempre aos solavancos para chegar a um hospital com banco de sangue. Não sei se viveu ou não, mas vou saber, preciso de saber. Há mais de um ano e meio que não havia casos da fase febril da doença nesta zona, e precisamente no dia em que aqui estamos vimos esta senhora... parece obra do destino.



A semana chegou ao fim. Eu fiquei com uma vontade enorme de voltar e de viver mais de perto esta realidade, de estar mais tempo perto da doença que investigo e de aprender com estas pessoas. Também sei que ir a estes sítios é arriscar um pouco, aqui há muitas doenças, muitas estradas perigosas, mas a experiência vale muito a pena.

Lembro-me de que quando chegámos a casa, depois de termos saído do laboratório com as amostras todas guardadas, as duas estávamos emocionadas só de pensar na semana que tínhamos vivido e nas pessoas que tínhamos conhecido e deixado para trás. Foi lindo, emocionante e inesquecível. Gostava de viver 1 mês em Mayland ou em Los Ranchos.

Dia 5: Huancabamba

O último dia para recolher amostras foi em Huancabamba. E tão longe que está Huancabamba!!! O caminho é um pouco acidentado e acho que só mesmo pessoas de aqui e com experiência é que deviam conduzir nestas estradas, ou melhor, nestes caminhos. Uma das coisas marcantes desta semana foi mesmo este caminho, porque a certa altura, e durante horas, estamos envolvidos por montanhas e nuvens. Temos à nossa esquerda a montanha que estamos a subir (e que depois descemos porque para chegar a Huancabamba temos de passar uma montanha de quase 4000 metros), do lado direito muitas montanhas até ao horizonte, um céu muito azul e em baixo de nós as nuvens. Chegámos mesmo a passar pelo meio das nuvens. As fotos estão bonitas, mas não transmitem a verdadeira beleza da paisagem.

 








Parámos no caminho para beber alguma coisa e apanhar ar, que depois de tantas curvas já estávamos um bocado enjoadas. Eu pedi um café e trouxeram-me uma caneca cheia de água quente. Fiquei à espera que me trouxessem o café e nada, não traziam mais nada... até que me dizem que o café era o que estava na mesa. Como estava em todas as mesas eu pensava que aquele frasco era daquele vinagre mais escuro ou algo para temperar a comida. Mas não, era essência de café, do melhor café que bebi na minha vida.


Quando chegámos tivemos uma reunião com o director do centro, explicámos o projecto e qual era o objectivo e partimos casa por casa, para recolher sangue de pessoas que já tinham tido Bartonella. Este trabalho de ir casa por casa (como também fizemos em Mayland) é diferente de estar no centro de saúde onde as pessoas já estão à nossa espera. Aqui sim, deparamos com a realidade em que vivem e como não há uma fila de pessoas atrás para serem atendidas podemos estar mais tempo com elas, perceber os seus problemas e pensamentos. 

 






Cenouras gigantes (cheguei a pensar que era outra coisa qualquer que não cenouras...).









Percorremos várias casas, numa delas estavam 3 irmãos sozinhos, os pais estavam no campo a trabalhar. Seguiam-nos pelo meio da vegetação enquanto nós íamos pelos caminhos. Ao principio nem os víamos. Quando parávamos em algum sitio, lá estavam eles com um enorme sorriso a espreitar pelo meio dos arbustos. Mesmo descalços eram mais rápidos que nós. A menina com quem estou na foto fez-me lembrar o Mogli, tão tão linda. 


Esta senhora era uma querida, queria companhia, vive aqui sozinha.



Houve um casal em que ele não queria de maneira nenhuma tirar sangue, a senhora que até queria participar no estudo, mas o marido não estava a achar muita piada e ela dizia que estava débil e que era muito sangue... mas, se quiséssemos podíamos tirar sangue ao seu filho que também tinha tido Bartonella. :O





 






Achei piada ao letreiro por cima da porta "Família Saudável".




No final da tarde, já a ficar de noite vimos pelo caminho mais uma família que tinha tido Bartonella. Subiram todos para a nossa carrinha, éramos mais de 10 pessoas na carrinha, é de caixa aberta, não se assustem. Parámos na casa deles e recolhemos amostras de quase toda a família, já sem luz, iluminados por lanternas e pelas luzes da carrinha.



No dia seguinte, voltar tudo para trás até Chulucanas com uma paragem pelo centro de saúde de Salitral onde tínhamos deixado o primeiro grupo de amostras. Sim, porque a logística de cada dia recolher amostras, cada dia ter que congelá-las e mantê-las sempre congeladas até chegar a Lima não é propriamente fácil. Andávamos sempre com caixas de esferovite cheias daquelas coisas de gelo que se põem nas geladeiras e a ver se nada se descongelava. Tapávamos com casacos as caixas para não apanharem sol... eram super bem tratadas estas amostras.

No outro dia apanhámos o avião de Piura para Lima. Foi um stress para conseguir embarcar amostras de sangue e tivemos que mudar o voo das 8h da manhã para o meio dia para conseguimos facturar as amostras. Em Lima, tivemos de esperar pela caixa umas 2 horas e fomos directas para o laboratório para guardá-las bem guardadinhas. Para isso tivemos de dividir cada amostra por vários tubinhos (é assim que se guardam) e demorámos até à uma da manhã. Num sábado, éramos as únicas a trabalhar, num laboratório que antes foi um hospital infantil e que se diz assombrado pelas crianças que ali morreram. Eu já conhecia o laboratório, mas nunca tinha ficado até tão tarde... íamos a todos os sítios juntas e apanhámos uns belos sustos quando o segurança entrava pelo laboratório. Por exemplo, o sitio para lavar as mãos  são as antigas banheiras onde mergulhavam as crianças para baixar a febre e algumas salas do laboratório são as antigas salas de operações. Me-do!