sábado, 29 de março de 2014

Dia 5: Huancabamba

O último dia para recolher amostras foi em Huancabamba. E tão longe que está Huancabamba!!! O caminho é um pouco acidentado e acho que só mesmo pessoas de aqui e com experiência é que deviam conduzir nestas estradas, ou melhor, nestes caminhos. Uma das coisas marcantes desta semana foi mesmo este caminho, porque a certa altura, e durante horas, estamos envolvidos por montanhas e nuvens. Temos à nossa esquerda a montanha que estamos a subir (e que depois descemos porque para chegar a Huancabamba temos de passar uma montanha de quase 4000 metros), do lado direito muitas montanhas até ao horizonte, um céu muito azul e em baixo de nós as nuvens. Chegámos mesmo a passar pelo meio das nuvens. As fotos estão bonitas, mas não transmitem a verdadeira beleza da paisagem.

 








Parámos no caminho para beber alguma coisa e apanhar ar, que depois de tantas curvas já estávamos um bocado enjoadas. Eu pedi um café e trouxeram-me uma caneca cheia de água quente. Fiquei à espera que me trouxessem o café e nada, não traziam mais nada... até que me dizem que o café era o que estava na mesa. Como estava em todas as mesas eu pensava que aquele frasco era daquele vinagre mais escuro ou algo para temperar a comida. Mas não, era essência de café, do melhor café que bebi na minha vida.


Quando chegámos tivemos uma reunião com o director do centro, explicámos o projecto e qual era o objectivo e partimos casa por casa, para recolher sangue de pessoas que já tinham tido Bartonella. Este trabalho de ir casa por casa (como também fizemos em Mayland) é diferente de estar no centro de saúde onde as pessoas já estão à nossa espera. Aqui sim, deparamos com a realidade em que vivem e como não há uma fila de pessoas atrás para serem atendidas podemos estar mais tempo com elas, perceber os seus problemas e pensamentos. 

 






Cenouras gigantes (cheguei a pensar que era outra coisa qualquer que não cenouras...).









Percorremos várias casas, numa delas estavam 3 irmãos sozinhos, os pais estavam no campo a trabalhar. Seguiam-nos pelo meio da vegetação enquanto nós íamos pelos caminhos. Ao principio nem os víamos. Quando parávamos em algum sitio, lá estavam eles com um enorme sorriso a espreitar pelo meio dos arbustos. Mesmo descalços eram mais rápidos que nós. A menina com quem estou na foto fez-me lembrar o Mogli, tão tão linda. 


Esta senhora era uma querida, queria companhia, vive aqui sozinha.



Houve um casal em que ele não queria de maneira nenhuma tirar sangue, a senhora que até queria participar no estudo, mas o marido não estava a achar muita piada e ela dizia que estava débil e que era muito sangue... mas, se quiséssemos podíamos tirar sangue ao seu filho que também tinha tido Bartonella. :O





 






Achei piada ao letreiro por cima da porta "Família Saudável".




No final da tarde, já a ficar de noite vimos pelo caminho mais uma família que tinha tido Bartonella. Subiram todos para a nossa carrinha, éramos mais de 10 pessoas na carrinha, é de caixa aberta, não se assustem. Parámos na casa deles e recolhemos amostras de quase toda a família, já sem luz, iluminados por lanternas e pelas luzes da carrinha.



No dia seguinte, voltar tudo para trás até Chulucanas com uma paragem pelo centro de saúde de Salitral onde tínhamos deixado o primeiro grupo de amostras. Sim, porque a logística de cada dia recolher amostras, cada dia ter que congelá-las e mantê-las sempre congeladas até chegar a Lima não é propriamente fácil. Andávamos sempre com caixas de esferovite cheias daquelas coisas de gelo que se põem nas geladeiras e a ver se nada se descongelava. Tapávamos com casacos as caixas para não apanharem sol... eram super bem tratadas estas amostras.

No outro dia apanhámos o avião de Piura para Lima. Foi um stress para conseguir embarcar amostras de sangue e tivemos que mudar o voo das 8h da manhã para o meio dia para conseguimos facturar as amostras. Em Lima, tivemos de esperar pela caixa umas 2 horas e fomos directas para o laboratório para guardá-las bem guardadinhas. Para isso tivemos de dividir cada amostra por vários tubinhos (é assim que se guardam) e demorámos até à uma da manhã. Num sábado, éramos as únicas a trabalhar, num laboratório que antes foi um hospital infantil e que se diz assombrado pelas crianças que ali morreram. Eu já conhecia o laboratório, mas nunca tinha ficado até tão tarde... íamos a todos os sítios juntas e apanhámos uns belos sustos quando o segurança entrava pelo laboratório. Por exemplo, o sitio para lavar as mãos  são as antigas banheiras onde mergulhavam as crianças para baixar a febre e algumas salas do laboratório são as antigas salas de operações. Me-do!

1 comentário:

  1. As paisagens são magnificas, de facto o azul do céu é lindícimo. Esse país tanto nos deslumbra pela sua beleza natural, como pela pobreza extrema, simpatia, generosidade e modo de vida desse povo.

    Até num país tão pobre se podem fazer "figurinhas"....então estavas à espera do café e o café era vinagre balsâmico....... :D

    Das tuas fotos aqui em Huancabamba gosto particularmente de 4 ou 5:
    - A pose do cão que está todo escarrapachado no chão.
    - A tua com o cãozinho preto ao colo (quem diria.......).
    - O menino com a banana na mão, o menino é LLIINNNDDDOOO.
    - Os meninos sentados no barrote de madeira com o seu "fiel amigo" ao lado, ali tão atento e sereno, como que se os guardá-se... Serão sem duvida estes animais a sua maior distração/companheiros/amigos.....
    A minha foto de eleição:
    -Os dois meninos abraçados, caminhando lado a lado, "estrada" fora.Iam a indicar-vos o caminho, podiam apenas caminhar lado a lado, mas não, estão tão abraçados...Aqui a amizade talvez tenha um significado diferente ou melhor se calhar aqui é que sabem o verdadeiro significado da palavra AMIZADE. A foto está LINDA.
    Escusado será dizer que gosto de todas as fotos e principalmente daquelas onde tu estás, sempre LINDA, das outras pelo que nos transmitem, pelo que através delas nos dás a conhecer desse povo, do teu/vosso fantástico trabalho/dedicação e do LINDO SER HUMANO QUE TU ÉS.
    Bem hajas e todos os que estão contigo.
    Mts bjs, ILY
    Mami

    ResponderEliminar