O último dia para
recolher amostras foi em Huancabamba. E tão longe que está Huancabamba!!! O
caminho é um pouco acidentado e acho que só mesmo pessoas de aqui e com
experiência é que deviam conduzir nestas estradas, ou melhor, nestes caminhos.
Uma das coisas marcantes desta semana foi mesmo este caminho, porque a certa
altura, e durante horas, estamos envolvidos por montanhas e nuvens. Temos à
nossa esquerda a montanha que estamos a subir (e que depois descemos porque
para chegar a Huancabamba temos de passar uma montanha de quase 4000 metros),
do lado direito muitas montanhas até ao horizonte, um céu muito azul e em baixo
de nós as nuvens. Chegámos mesmo a passar pelo meio das nuvens. As fotos estão bonitas, mas não transmitem a verdadeira beleza da paisagem.
Parámos no caminho para beber alguma coisa e apanhar ar, que depois de tantas curvas já estávamos um bocado enjoadas. Eu pedi um café e trouxeram-me uma caneca cheia de água quente. Fiquei à espera que me trouxessem o café e nada, não traziam mais nada... até que me dizem que o café era o que estava na mesa. Como estava em todas as mesas eu pensava que aquele frasco era daquele vinagre mais escuro ou algo para temperar a comida. Mas não, era essência de café, do melhor café que bebi na minha vida.
Quando chegámos
tivemos uma reunião com o director do centro, explicámos o projecto e qual era
o objectivo e partimos casa por casa, para recolher sangue de pessoas que já
tinham tido Bartonella. Este trabalho de ir casa por casa (como também fizemos
em Mayland) é diferente de estar no centro de saúde onde as pessoas já estão à
nossa espera. Aqui sim, deparamos com a realidade em que vivem e como não há
uma fila de pessoas atrás para serem atendidas podemos estar mais tempo com
elas, perceber os seus problemas e pensamentos.
Cenouras gigantes (cheguei a pensar que era outra coisa qualquer que não cenouras...).
Percorremos
várias casas, numa delas estavam 3 irmãos sozinhos, os pais estavam no campo a
trabalhar. Seguiam-nos pelo meio da vegetação enquanto nós íamos pelos
caminhos. Ao principio nem os víamos. Quando parávamos em algum sitio, lá
estavam eles com um enorme sorriso a espreitar pelo meio dos arbustos. Mesmo
descalços eram mais rápidos que nós. A menina com quem estou na foto fez-me
lembrar o Mogli, tão tão linda.
Esta senhora era
uma querida, queria companhia, vive aqui sozinha.
Houve um casal em que ele não queria de maneira nenhuma tirar sangue, a senhora que até queria participar no estudo, mas o marido não estava a achar muita piada e ela dizia que estava débil e que era muito sangue... mas, se quiséssemos podíamos tirar sangue ao seu filho que também tinha tido Bartonella. :O
Achei piada ao letreiro por cima da porta "Família Saudável".
No final da
tarde, já a ficar de noite vimos pelo caminho mais uma família que tinha tido
Bartonella. Subiram todos para a nossa carrinha, éramos mais de 10 pessoas na
carrinha, é de caixa aberta, não se assustem. Parámos na casa deles e recolhemos
amostras de quase toda a família, já sem luz, iluminados por lanternas e pelas
luzes da carrinha.
No dia seguinte,
voltar tudo para trás até Chulucanas com uma paragem pelo centro de saúde de
Salitral onde tínhamos deixado o primeiro grupo de amostras. Sim, porque a
logística de cada dia recolher amostras, cada dia ter que congelá-las e
mantê-las sempre congeladas até chegar a Lima não é propriamente fácil.
Andávamos sempre com caixas de esferovite cheias daquelas coisas de gelo que se
põem nas geladeiras e a ver se nada se descongelava. Tapávamos com casacos as caixas para não apanharem sol... eram super bem tratadas estas amostras.
No outro dia
apanhámos o avião de Piura para Lima. Foi um stress para conseguir embarcar
amostras de sangue e tivemos que mudar o voo das 8h da manhã para o meio dia
para conseguimos facturar as amostras. Em Lima, tivemos de esperar pela caixa
umas 2 horas e fomos directas para o laboratório para guardá-las bem
guardadinhas. Para isso tivemos de dividir cada amostra por vários tubinhos (é
assim que se guardam) e demorámos até à uma da manhã. Num sábado, éramos as
únicas a trabalhar, num laboratório que antes foi um hospital infantil e que se
diz assombrado pelas crianças que ali morreram. Eu já conhecia o laboratório, mas nunca tinha ficado até tão
tarde... íamos a todos os sítios juntas e apanhámos uns belos sustos quando o segurança entrava pelo laboratório. Por exemplo, o sitio para lavar as mãos são as antigas
banheiras onde mergulhavam as crianças para baixar a febre e algumas salas do laboratório são as antigas salas de operações. Me-do!
As paisagens são magnificas, de facto o azul do céu é lindícimo. Esse país tanto nos deslumbra pela sua beleza natural, como pela pobreza extrema, simpatia, generosidade e modo de vida desse povo.
ResponderEliminarAté num país tão pobre se podem fazer "figurinhas"....então estavas à espera do café e o café era vinagre balsâmico....... :D
Das tuas fotos aqui em Huancabamba gosto particularmente de 4 ou 5:
- A pose do cão que está todo escarrapachado no chão.
- A tua com o cãozinho preto ao colo (quem diria.......).
- O menino com a banana na mão, o menino é LLIINNNDDDOOO.
- Os meninos sentados no barrote de madeira com o seu "fiel amigo" ao lado, ali tão atento e sereno, como que se os guardá-se... Serão sem duvida estes animais a sua maior distração/companheiros/amigos.....
A minha foto de eleição:
-Os dois meninos abraçados, caminhando lado a lado, "estrada" fora.Iam a indicar-vos o caminho, podiam apenas caminhar lado a lado, mas não, estão tão abraçados...Aqui a amizade talvez tenha um significado diferente ou melhor se calhar aqui é que sabem o verdadeiro significado da palavra AMIZADE. A foto está LINDA.
Escusado será dizer que gosto de todas as fotos e principalmente daquelas onde tu estás, sempre LINDA, das outras pelo que nos transmitem, pelo que através delas nos dás a conhecer desse povo, do teu/vosso fantástico trabalho/dedicação e do LINDO SER HUMANO QUE TU ÉS.
Bem hajas e todos os que estão contigo.
Mts bjs, ILY
Mami