domingo, 23 de março de 2014

Dia 3: Mayland

O terceiro dia no norte do Peru foi passado em Mayland. Às 6h da manhã já estávamos prontas e, segundo diziam, partimos rumo ao mais profundo do Peru. 
Meia hora depois estávamos parados porque o carro não andava. O motorista tentou arranjar, apertava e desapertava umas peças, mas nada. O esforço do dia antes para tirar o carro do buraco e aquele fumo todo que vimos a sair não foi por acaso. E assim ficámos plantadas no meio do nada e com o pensamento de “e agora? Tamos fritas!! Como vamos conseguir as amostras?”. 



Depois de uns telefonemas e algum tempo veio a ambulância de Tunal para nos levar ao nosso destino. O caminho foi agitado, primeiro porque íamos de lado sem muito sitio para nos segurar e segundo porque a estrada era só lama, a ambulância enterrava-se e às vezes era um 31 sair do mesmo sitio. A paisagem, como sempre, maravilhosa. 




Depois de umas horas chegámos e ao fim de 5 minutos em Mayland já estávamos com os pés ensopados em lama (meninas de cidade!). 







Resolvemos o problema comprando estas maravilhosas botas. :)


Aqui foi diferente, à nossa espera só havia uma senhora com os filhos e teríamos de ir casa por casa recolher as amostras. No Peru, os estudantes de Medicina têm de fazer 1 ano de trabalho rural. Por exemplo em Mayland estavam 3 pessoas, uma médica, uma obstetra e uma enfermeira. Partimos todos juntos de ambulância até onde se podia e para chegar às casas andámos muito, saltámos cercas, descemos montanhas, subimos montanhas, eu sei lá. Um calor do catano!! Vi uma tanrantula enorme (não sei se era tanrantula ou não, mas era uma aranha coberta de pêlo).


 

Mayland é um sitio onde as casas estão dispersas, há lama por todo o lado, há montanhas de muitos verdes diferentes. Aqui vivemos de perto uma realidade que não imaginamos no nosso dia-a-dia e diria, até um pouco assustadora. Meninas que aos 14 anos têm uma barriga enorme de grávida. O pai é um Sr. de 30 e tal anos. E não, não foi uma violação, ela queria tar com ele e a mãe dela achava bem, afinal ela também começou a ter filhos a essa idade. Um jovem que por vingança é atirado para um abismo por outros 5. De novo, uma rapariga de 18 anos com um bebé de 7 dias e sem nome nos braços. Uma escola com muitas crianças a brincar no meio da relva, sem baloiços, sem uma bola, sem nada.








A casa mais longe que fomos, onde estava a tal rapariga de 14 anos grávida, está a mais de 2 horas do centro de saúde (com uma enorme subida pelo caminho). Aflige-me só de pensar que se lhe precisa de algo alguém da sua casa tem de caminhar até ao centro de saúde para avisar a médica e esta tem de caminhar até lá. Muitas vezes por aqui ouvimos falar de mortes maternas, seja porque há uma complicação e não há os meios de soccorrê-las ou porque os médicos não chegam a tempo, ou elas próprias que morrem em cima de uma mota a meio do caminho.







A casa da rapariga que tinha sido mãe há 7 dias.




No caminho para a casa da rapariga de 14 anos grávida.




A mãe desta rapariga, que nos viu com “fome”, deu-nos tipo um queijo fresco com canchitas (milho frito), dentro de um saco de plástico de onde todos tirávamos pedaços com as mãos todas sujas. Gosto disto!

Quando acabámos o nosso trabalho as 3 raparigas do centro de saúde preparam-nos um maravilhoso almoço com aquilo que tinham (porque claro, não há supermercados ao virar da esquina com centenas de produtos diferentes para escolher), banana frita, queijo, arroz e atum com cebola. :)



Devo dizer que tenho uma enorme admiração por estas pessoas. Estas 3 raparigas tinham estado a viver 4 dias na casa da rapariga que tinha o bebé de 7 dias, uma vez que a sua casa está longe e para que tivesse assistência no momento do parto, tiveram de descer o abismo para levantar o corpo do jovem que foi atirado e já se estavam a preparar para o parto da rapariga de 14 anos. 

Realmente, vimos e vivemos, durante apenas 1 dia, o mais profundo do Peru. Deu-me a sensação que em Mayland o muito a que se pode aspirar é ter filhos e uma familia. Nem uma casa digna têm. Se são felizes? Sim, são. E são pessoas de bem com a vida que não exigem nada mais. É impressionante o quão diferente é a vida das pessoas que vivem em Mayland. É nestas alturas em que pensamos e questionamos muita coisa. 


4 comentários:

  1. Minha querida,

    Como disse a tua mãe, acho esta tua entrega formidável! Uma verdadeira força da natureza. Este "choque" de civilizações é de pôr qualquer um a pensar. Já era conhecimento geral mas, é totalmente diferente quando vemos pessoas muito próximas em contacto com uma realidade totalmente diferente.
    As paisagens apresentam uma beleza tal, que fazem cortar a respiração a qualquer um! És uma feliz contemplada.
    Quando disseste que as pessoas são felizes, fiquei a pensar. E cheguei a conclusão que podem-no ser mesmo, afinal, não conhecem outra realidade. Mas nós que conhecemos, achamos que devem viver numa infelicidade extrema.
    Enfim, será mais uma questão que dará para pensar até ao fim da nossa vida. Como se diz na "gíria", dará pano p'ra mangas!

    Um beijo enorme de terras Lusas*

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  2. La verdad es que vivir estas cosas cambia la vida, la manera de ver nuestro dia a dia y las preocupaciones que podamos llegar a tener.

    Es impresionante como las cosas que a nosotros nos impactan para ellos es la normalidad. Y que viven felices. En medio del barro, sin acceso al centro de salud, pero felices por formar su familia.

    Me alegro de que hayais vivido esto. Realmente con estas experiencias le encuentras un 'porque' a lo que investigamos dia a dia. En lo poco que podamos tenemos que hacerle la vida más fácil a estas personas. Que aunque sean felices no tengan que tratar con enfermedades, a veces mortales, las cuales si vivieran en otras condiciones no se tendrian ni que preocupar.

    Sois las mejores :)

    Besitos!

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  3. Olá filhota LINDA
    Na 1ª foto em que estás tão pensativa, sem saberes como iam chegar ao vosso destino, devido à avaria do carro, está atrás de ti um burro todo jeitoso.....
    Tadinhas das minhas meninas, a Noémi já se encosta/aninha em ti, certamente a "procurar" algum consolo para tão longa espera.
    Olha, nem tudo é mau, gosto do banco!!!
    Realmente as paisagens são muito bonitas. Mayland parece-me ainda mais pobre que Tunal e Guayaquiles, é???? Vivem em pleno séc.XXI como se vivia há mais de 50 anos atrás na aldeia transmontana onde o meu pai nasceu e ainda assim lá as ruas eram empedradas.
    Gosto das tuas galochas. Sempre quiseste ter umas :)
    Quanto à aranha, não devia ser tarantula, apenas se esqueceu ou não teve tempo de ir à estéticista fazer a depilação......ADORO BICHOS :s
    A ambulância é linda!!!! matricula deve ser chinesa, não se percebe nada,"bedum" não lhe falta, as bactérias até devem bater palmas. Mais parece a camioneta da Rodoviária, entrem mais, cheguem-se para lá....Os caminhos....deve ser mesmo uma aventura andar aí tanto de carro como a pé.
    Agora vem a parte mais triste dessa realidade tão distante de nós. Os meninos na escola a brincarem, tal como tu dizes, SEM NADA. Mas brincam!!!!! Eu que trabalho numa escola, vejo meninos tão diferentes.... a grande maioria não sabe brincar e TÊM MUITO com que o fazer. Não me pareceu que a escola tivesse gradeamento em volta e os meninos ali estão, nem tentam fugir/sair dali. Os "meus", vão para os sitios mais escondidos e saltam os gradeamentos sempre que podem. Quais serão os mais felizes ?????
    As casas são extremamente pobres, varandas sem gradeamentos, as pessoas dormem no chão? Parece-me pela foto que dizes ser a casa da rapariga que foi mãe há 7 dias?
    Suponho que o rapaz atirado para o abismo tenha morrido, tal como morrem muitas meninas tentando dar à luz sem condições nem assistência a tempo e horas. Vivemos em mundos diferentes.É um facto.No "nosso" mundo maltratam-se cada vez mais as crianças, enfiam-nas em instituições para serem mais maltratadas ainda, são violadas,raptam-nas e algumas nunca mais aparecem. As pessoas são cada vez mais egoístas, não olham para o lado.... Nós "caminhamos" para sermos mais infelizes do que eles, porque outrora conhecemos uma realidade que está a deixar de existir, nos está a deixar cada vez mais pobres e desamparados, os nossos idosos, as nossas crianças, os nossos jovens, já QUASE NÃO SABEM SORRIR.
    Vejo essas pessoas sorrirem e darem com gosto o pouco que têm mesmo que seja só banana frita e queijo.
    Quem conheça os dois mundos, realmente questiona muita coisa, essa é uma dura realidade que em moldes diferentes pode ser o espelho da nossa dura realidade também, com a agravante de que qualquer dia, não sabemos sorrir.
    Mts, mts beijinhos.
    Mami

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